calma
calma
Zona Norte de Porto Alegre: recuerdos fabris, prédios baixos, esquinas misteriosas, luzes amarelas, certo breu, as estações do trem, geometria, gatos junto ao porto velho.
Zona Sul de Porto Alegre: longos, excessivos espaços, carros, ares de Tramandaí, gaivotas perdidas, rótulas, tristeza, Tristeza.
A epígrafe de "Duas vidas", de Emanuele Trevi.
água com gás e muito limão de manhã e ao longo do dia; balas de gengibre sem pudor e comedimento; dois copinhos no Vermut de la Aduana.
Já se nota certo abandono nas mesas da cidade. Caminho pela rua da Praia e percebo o gesto mais displicente entre os braços e os copos de cerveja, certa languidez ampliada na conversação, um silêncio de fim de temporada que está entre a desistência e o alívio.
O nome do ciclone é tão bom que estou assistindo com singular benevolência as dezesseis viradas no tempo que atravessam o céu gaúcho desde a madrugada. Em seguida se aquietará o tormentoso Biguá.
Já de volta ao Monza, a caminho de algum outro lugar de visitação (o Centro, o apartamento de algum conhecido?), entendi – não sem algo de dor – que aquela certeza poderia não ser muito mais do que um aceno de conveniência ou a resignação cansada diante de uma dúvida que jamais resolveria.
"É outra coisa", enfim ele disse, um pouco ao meu tio, um pouco a esmo, para o concreto do Olímpico, para o gramado vazio. "Aqui, sim, é outra coisa. Até o gramado, olha: é muito mais bonito". E dizia – e se decidia – sem efusão, com rigor, como quem testemunha depois de um longo e trabalhoso exame.
Eu já havia estado algumas vezes ali, quase sempre na Social. Apontei traços do estádio que me pareciam deslumbrantes, mostrei os balcões da copa, alguns prédios que podíamos identificar dali, como os cemitérios na subida da Oscar Pereira. E percebi que meu primo se convencia com enorme facilidade.
Antes de chegar ao Olímpico, tomamos café em um posto da Azenha. E depois do pórtico, o entrave: o estádio não estava aberto para interioranos e tivemos que negociar com mais de um vigia para que nos abrissem o portão. Entramos: meu tio ansioso, meu primo em silêncio, eu orgulhoso do estádio azul.
Ele quase nada dizia, no entanto. Descemos o morro, entramos no Beira-Rio guiados por um funcionário de bom humor. Na arquibancada, contemplamos por minutos o estádio vazio. De tempo em tempo, eu olhava para o meu primo, que, mais além de algum comentário gracioso ou aéreo, seguia como indiferente.
A rua leva ao topo do morro: do mirante de onde se enxerga boa parte de Porto Alegre, recordo o enxame de crianças que se aglomerou junto ao Monza para pedir moedas. Do alto, se via também, imponente, o Beira-Rio: era por óbvio uma cartada – desleal – do meu tio para inclinar a escolha do meu primo.
A caminho do Beira-Rio, passamos pela quadra da rua Silveiro onde morava parte da minha família paterna. Lembro de ter omitido deliberadamente a informação, talvez para evitar uma tão improvável como absurda visita. Seguimos ao largo, decididos a primeiro subir ao morro Santa Tereza.
Iríamos primeiro ao Beira-Rio e depois ao Olímpico. Meu primo veria os dois estádios, vazios ou apenas com jogadores troteando ao redor do gramado, e emitiria a opinião definitiva. Não seria uma atuação de Grêmio ou Internacional o fator de decisão, mas a arquitetura, o impacto mudo dos palcos.
Acontece que meu primo, que já tinha dez anos ou mais, ainda não havia se definido: de tanto em tanto, se declarava colorado, para em seguida voltar a dizer-se gremista, numa oscilação que angustiava o meu tio. Mostrar a ele os dois estádios, em situação neutra, aparecia como a solução do enigma.
É possível que naquele dia se viajasse sem motivo aparente, ou que o motivo da excursão fosse mostrar a cidade ao meu primo, três anos mais novo do que eu. Almoçamos no caminho (mas quase na chegada, em Canoas), por pressa, fome ou econômicas razões, e então começamos um pequeno périplo pela cidade.
Viajávamos de Santa Maria a Porto Alegre: eu, meu tio e seu filho, meu único primo por aquele lado da família. Não lembro o motivo da viagem; eles muito raramente iam a Porto Alegre e eu sim, mas com o meu pai, quase todos os semestres, e me hospedava justamente no Menino Deus.
Há uns dias, voltei a caminhar pela rua Silveiro, no Menino Deus, depois de uns quantos anos sem passar por ela. Não demorei a lembrar de uma história de uns vinte anos atrás e que, apesar de ser uma história de viagens e deslocamentos, acabo por situá-la ali, naquele ponto do meio do caminho.
O céu de Porto Alegre em mais que ambígua coabitação: entre os resíduos do aguaceiro, o esforço em refrescar-se e a covarde aceitação de um novo e pesado mormaço.
flor de platal! uma garrafa de fernet, dois quilos de pura folha, uns tannat's coloniais e um livrinho caro
"Rehenes de la geografía, nuestro pasado transcurre bajo el influjo de la ciudad. Esa ciudad antigua sigue siendo nuestro umbral. Una trama abigarrada de rectas y atajos, con ángulos abiertos hasta la exageración, de una amplitud inaudita, se impuso como el escenario de nuestros recorridos" (p. 21).
Mas talvez hoje suba à avenida Independência para buscar "Los planetas", de Sergio Chejfec. A ver.
Certa dispersão leitora neste trecho de dezembro: uma trabalhosa releitura acabada e desde então volumes abandonados, livros que voltam para a estante duas horas depois de recolhidos e ainda a espera pelos que agarrarei em Montevideo no fim do mês.
Na semana que vem vou a Santa Maria e, entre as encomendas já registradas, levarei erva-mate para duas pessoas, um livro autografado por Faraco para um tio, um livro de Stefan Zweig para outro (que também receberá tintas importadas), entre remessas menores. Percebo um devir caixeiro-viajante.
Deixo aqui a (turbulenta) resenha publicada hoje na flamante revista Sepé; com sorte, pode alcançar os leitores de ensaios e os mateadores pensativos: revistasepe.art.br/2024/12/11/a...
A ardilosa Porto Alegre estende uma vez mais seus tentáculos.
Talvez tenha me atordoado em definitivo com o Twitter em seu estado de calamidade; talvez tenha aceitado que este pode ser um espaço menos provisório para as intempestivas anotações cotidianas. Talvez; veremos.
O que por minutos parecia ser uma panela de pressão prestes a explodir ou um continente de morcegos sob tortura ao que tudo indica é, em verdade, uma única unidade de grilo (flor de cantor) a habitar o pátio vegetal do apartamento térreo.
y matear con vaquitas 🧉🐄
Cinco para as dez da manhã, ventos miantes e nuvens ligeiras no céu porto-alegrense.