Adolescência é faixa etária com mais homens misóginos, diz juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio ao falar de estupro coletivo
A juíza de direito Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro há 11 anos e responsável pelo julgamento do adolescente envolvido no caso do estupro coletivo de uma jovem de 17 anos, em Copacabana, na Zona Sul, afirmou na terça-feira durante a CPI do Crime Organizado, no Senado, que a faixa etária com maior número de homens misóginos é a adolescência, mais do que homens adultos e idosos. Segundo ela, dados de uma universidade inglesa relacionam esse fenômeno ao acesso precoce à pornografia.
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Aos senadores, a magistrada destacou que não poderia entrar em detalhes sobre o caso do estupro coletivo da adolescente de 17 anos, já que é a juíza responsável por julgar o menor envolvido. Ainda assim, afirmou que a predominância de comportamentos misóginos é observada principalmente na adolescência.
— Não posso me manifestar sobre o processo em andamento sob pena de ter arguida a minha suspeição. [...] Tem uma pesquisa de uma universidade inglesa que mostra que, em 2025, a faixa etária com maior número de homens misóginos e com ódio de mulheres é na adolescência. Tem mais adolescentes misóginos do que homens adultos e homens idosos. E isso é principalmente provocado por causa do acesso precoce à pornografia — afirmou.
Ainda afirmou que episódios de abuso sexual entre estudantes de escolas tradicionais de classe média não são exceção na Vara da Infância e Juventude. Segundo ela, há um padrão que chama atenção nesses casos. De acordo com Cavalieri, muitas dessas violências são filmadas, o que permite observar que os adolescentes frequentemente reproduzem comportamentos vistos em conteúdos pornográficos.
— Não é o primeiro, nem o décimo, nem o vigésimo caso de estupro coletivo entre adolescentes da mesma escola, de escolas tradicionais de classe média que eu recebo na minha vara. E tem algo que me chama a atenção nesses casos, em todos eles, porque os senhores sabem que quase sempre os fatos são filmados, e a gente vê o vídeo do ato infracional da violência sexual. Claramente esses meninos estão reproduzindo uma cena que eles viram num filme, num vídeo de sexo explícito pornográfico. Então há uma repetição de um comportamento de algo que eles não deveriam nem estar tendo acesso — disse.
Vanessa Cavalieri também citou pesquisas que apontam que crianças no Brasil têm o primeiro contato com conteúdos de sexo explícito por volta dos 9 anos. Segundo ela, esse acesso muitas vezes ocorre de forma acidental, quando o jovem procura informações sobre educação sexual na internet. Ela afirma que a pornografia produzida de forma industrial costuma retratar relações misóginas, violentas contra mulheres e degradantes, o que pode influenciar a percepção de jovens que ainda não tiveram experiências na vida real.
— Quando a criança busca sobre educação sexual, em dois ou três cliques abre um site de pornografia. […] Os meninos e muitas vezes as próprias meninas, que ainda não têm nenhuma experiência sexual na vida real, estão aprendendo que aquilo é sexo de verdade, que é assim que devem se relacionar — afirmou.
O que disse a juíza
“Não é o primeiro, nem o décimo, nem o vigésimo caso de estupro coletivo entre adolescentes da mesma escola, de escolas tradicionais de classe média que eu recebo na minha vara".
“Quase sempre os fatos são filmados, e a gente vê o vídeo do ato infracional da violência sexual. Claramente esses meninos estão reproduzindo uma cena que eles viram num filme, num vídeo de sexo explícito pornográfico. Há uma repetição de um comportamento de algo que eles não deveriam nem estar tendo acesso".
“Tem uma pesquisa de uma universidade inglesa que mostra que hoje a faixa etária com maior número de homens misóginos e com ódio de mulheres é na adolescência".
“Tem mais adolescentes misóginos do que homens adultos e homens idosos".
“Há pesquisas que mostram que uma criança no Brasil tem o primeiro contato com sexo explícito aos 9 anos de idade, sem procurar. ....Quando a criança busca sobre educação sexual, em dois ou três cliques abre um site de pornografia."
“A pornografia industrial quase sempre é misógina, violenta contra a mulher e degradante.”
“Os meninos, e muitas vezes as próprias meninas, que ainda não têm nenhuma experiência sexual na vida real, estão aprendendo que aquilo é sexo de verdade e que é assim que devem se relacionar.”
Justiça mantém internação de menor
Menor investigado como mentor do estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos em Copacabana durante a chegada ao apartamento em que o crime ocorreu, em 31 de janeiro
Reprodução de câmera de segurança
O quinto envolvido em um caso de estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos, ocorrido no dia 31 de janeiro, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, um adolescente, da mesma idade da vítima, teve a prisão mantida pela Vara da Infância e da Juventude, de acordo com o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ). Apontado pelos policiais da 12ªDP (Copacabana) — responsável pela investigação — como sendo quem atraiu a vítima para um apartamento, onde ela foi violentada e agredida, o suspeito se entregou à polícia na sexta-feira, na 54ªDP (Belford Roxo).
A determinação judicial surgiu após uma mudança de posicionamento do Ministério Público do Rio (MPRJ), que, inicialmente, não tinha entendido necessário o pedido de apreensão contra o menor. Ele foi internado na Unidade de Acautelamento Gelso de Carbalho Amaral.
Na primeira manifestação enviada à Vara da Infância e Juventude da Capital, a 1ª Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude Infracional representou contra o adolescente por ato infracional análogo ao crime investigado, mas não solicitou sua internação provisória — medida equivalente à prisão no sistema socioeducativo. Sem o pedido do Ministério Público, a Justiça não poderia decretar a apreensão do adolescente de 17 anos.
A posição inicial do órgão havia sido informada na quarta-feira, quando veio a público que quatro homens maiores de idade haviam sido denunciados pelo estupro coletivo ocorrido no dia 31 de janeiro, em um apartamento na Rua Ministro Viveiros de Castro, em Copacabana.
Na quinta-feira desta semana, o MPRJ voltou atrás e pediu à Justiça a internação provisória do adolescente investigado no caso de estupro coletivo. A solicitação foi feita após o delegado Ângelo Lages, da 12ª DP (Copacabana), comunicar ao órgão o surgimento de uma segunda vítima que também atribui ao menor participação.
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