Irã começam a instalar minas navais no Estreito de Ormuz, diz TV; Trump ameaça impor resposta 'sem prececentes'
A Guarda Revolucionária do Irã começou a instalar minas navais na região do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% da produção global de petróleo e gás natural, e que está virtualmente fechado desde a semana passada, em meio à guerra lançada por EUA e Israel. A informação, revelada pela rede CNN, é mais um sinal de como os iranianos tentam elevar os custos do conflito por meios não convencionais, e põe em alerta países produtores e consumidores de todo o planeta.
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De acordo com a CNN, citando fontes dos serviços de inteligência dos EUA, dezenas de minas foram instaladas nos últimos dias, cobrindo uma área relativamente pequena da passagem que leva do Mar da Arábia ao Golfo Pérsico. A Guarda Revolucionária possui capacidade considerável de ação naval na área, com lanchas de ataque rápido, mísseis em áreas costeiras e barcos para instalar novas minas. Teerã não confirmou a informação.
Na semana passada, autoridades iranianas afirmaram que qualquer embarcação que tentasse passar por Ormuz seria atacada — desde o início da guerra, 10 navios sofreram danos e sete tripulantes morreram. A consultoria Kpler afirmou que o tráfego na área caiu 90%, seguradoras deixaram de aprovar apólices e gigantes do setor suspenderam viagens.
— Enquanto a situação permanecer insegura, acredito que todos os petroleiros, toda a navegação marítima, devem ser muito cautelosos — disse o porta-voz da diplomacia em Teerã, Esmail Baghaei, na segunda-feira, à rede CNBC.
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Há décadas o Irã usa o Estreito de Ormuz como ferramenta diplomática ou, como hoje, de guerra. O xá Reza Pahlevi, aliado dos EUA, o descrevia como “veia jugular” do país, e estabeleceu uma considerável força naval ali. Na Guerra Irã-Iraque, quando centenas de petroleiros foram atacados pelos dois lados, a República Islâmica tentou bloquear a passagem em mais de uma ocasião. Hoje, com o Golfo diante do maior conflito em duas décadas, os iranianos efetivamente interromperam o tráfego de navios, mesmo sob bombardeios que devastaram boa parte de suas capacidades.
— Haveria consequências catastróficas para os mercados mundiais de petróleo e, quanto mais tempo durar a interrupção, mais drásticas serão as consequências para a economia global — afirmou Amin Nasser, CEO da Aramco, a gigante saudita do petróleo, citado pela agência Reuters. — Embora já tenhamos enfrentado interrupções no passado, esta é de longe a maior crise que a indústria de petróleo e gás da região já enfrentou.
Mapa mostra onde fica localizado o Estreito de Ormuz
Arte O GLOBO
Com o ultimato da Guarda Revolucionária, o barril do petróleo superou a marca dos US$ 100, e seguia em alta consistente até as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, na segunda-feira, de que a guerra está perto do fim (algo que seus comandantes não parecem concordar). Pode ser um alívio temporário. Caso o bloqueio continue, a região teria meios restritos para escoar a produção, já afetada pela suspensão das operações em refinarias após ataques de drones.
— Infelizmente, para os mercados globais, a maior parte da capacidade ociosa [de exportação de petróleo] está nesta região — disse Nasser. — Mesmo com nossa capacidade de exportar pela costa oeste, estamos falando de cerca de 350 milhões de barris que deixarão o mercado por causa das interrupções.
Enquanto os iranianos demonstram resiliência no Golfo, nos EUA a impressão é a de que todos foram pegos de surpresa. O secretário de Energia, Chris Wright, afirmou nesta terça-feira que a Marinha havia escoltado um petroleiro por Ormuz, informação negada pela Casa Branca e pelo Pentágono horas depois. A possibilidade foi levantada algumas vezes por Trump nos últimos dias, mas o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, revelou não ter recebido qualquer ordem do presidente.
— Se formos incumbidos de escoltar, sabe, vamos analisar a gama de opções para criar as condições militares necessárias para isso — disse Caine em entrevista coletiva, ao lado do secretário de Defesa, Pete Hegseth.
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No começo da tarde, Trump disse ter destruído 10 navios responsáveis pela instalação de minas navais no Estreito de Ormuz, e que está usando a mesma estratégia aplicada no Caribe, onde forças americanas destruíram barcos supostamente ligados aos cartéis do narcotráfico na região. O presidente ainda reservou uma ameaça a Teerã.
“Se, por qualquer motivo, minas foram colocadas e não forem removidas imediatamente, as consequências militares para o Irã serão de uma magnitude sem precedentes. Se, por outro lado, removerem o que quer que tenha sido colocado, será um grande passo na direção certa!”, escreveu em sua rede social, o Truth Social. “CUIDADO.”
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Ao comentar os desencontros dos EUA, o chanceler do Irã, Abbas Araghchi, disse que “as autoridades americanas estão divulgando notícias falsas para manipular os mercados”.
“Isso não as protegerá do tsunami inflacionário que impuseram aos americanos”, escreveu na rede social X. “Os mercados enfrentam a maior crise da HISTÓRIA: maior do que o embargo de petróleo árabe, a Revolução Islâmica do Irã e a invasão do Kuwait JUNTOS.”
O fechamento (ou ameaça) é a mais recente arma da estratégia de resistência à guerra. Com milhares de alvos atingidos, entre bases, instalações do governo e áreas estratégicas, o regime busca elevar ao máximo e compartilhar os custos da guerra, como forma de pressionar um cessar-fogo que não signifique o fim da República Islâmica.
— Os iranianos já sofreram a maior parte dos danos que iriam sofrer — disse Jeffrey Lewis, pesquisador do Centro James Martin para Estudos de Não-Proliferação, à agência Bloomberg. — Não resta muito para os EUA e Israel destruírem. Mas o regime não desmoronou e agora está mirando a economia global.
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Nesta terça-feira, os EUA realizaram a mais intensa série de ataques contra o Irã, atingindo alvos ligados ao desenvolvimento e construção de armas. Foram ouvidas explosões nos arredores de Teerã e perto do aeroporto de Kerman — um morador da capital iraniana disse que a cidade “é a última parada antes do inferno”. A Organização Mundial da Saúde alertou para os riscos à saúde da “chuva negra”, causada por ataques a refinarias e instalações de armazenamento de combustíveis, e recomendou à população que permaneça em casa.
Na Casa Branca, a porta-voz Karoline Leavitt reiterou que o presidente Trump não afastou a possibilidade de enviar tropas ao Irã, hipótese mencionada com cada vez mais frequência.
— O presidente já falou sobre isso repetidamente. Sabiamente, ele não descarta nenhuma opção como comandante-em-chefe. Portanto, repito, eu hesitaria em confirmar qualquer coisa que um democrata no Capitólio diga neste momento sobre o pensamento do presidente — disse Leavitt aos jornalistas, se referindo ao deputado democrata Richard Blumenthal, que mais cedo afirmou que o governo Trump se encaminha para uma etapa terrestre da guerra.