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A história política do continente sul-americano é marcada por uma recorrente interferência dos Estados Unidos e um movimento pendular, com domínio ora de governos mais à esquerda, ora de presidências mais à direita, além de certos momentos de equilíbrio entre os dois espectros políticos. Em 2011, por exemplo, no primeiro ano de Dilma Rousseff (PT) à frente do governo brasileiro, dez dos 12 presidentes sul-americanos eram vinculados à esquerda ou à centro-esquerda, com um centrista na Colômbia (Juan Manuel Santos) e uma liderança de centro-direita no Chile (Sebastián Piñera). Duas décadas antes, em 1991, com Fernando Collor (PRN, à época) no Planalto, oito dos países da região tinham presidentes vinculados à direita ou à centro-direita, com apenas três lideranças de centro-esquerda. Atualmente, com a posse do ultraconservador José Antonio Kast no Chile, os dois espectros estão em relativo equilíbrio: Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Paraguai são governados pela direita, enquanto Brasil, Colômbia (que terá eleição no fim de maio), Guiana, Peru (que tem um presidente interino e terá eleições em abril), Suriname e Uruguai são comandados pela esquerda. A divisão tem suas consequências. Na Argentina de Javier Milei, um brasileiro condenado pela tentativa de golpe em 8 de janeiro recebeu asilo inédito. Na posse de Kast, o destaque para os brasileiros foi a presença do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e a ausência do presidente Lula (PT), representado pelo ministro de Relações Exteriores, chanceler Mauro Vieira. Ainda que a eleição de uma onda de políticos de direita ou de esquerda em países sul-americanos não signifique necessariamente que as demais nações do continente vão seguir o exemplo, a história mostra que o contexto regional é capaz de influenciar o resultado. Para entender de que maneira o atual cenário na América do Sul influencia as eleições brasileiras deste ano, a **Agência Pública** apresentou essa questão a três especialistas na política do continente. Confira a seguir a visão dos internacionalistas consultados. ## Por que isso importa? * A posse do novo presidente do Chile, José Antônio Kast, alinhado ao discurso de extrema direita, deixa a América do Sul dividida entre governos mais progressistas ou mais conservadores. * A política nos países vizinhos tem influência nas eleições brasileiras, mesmo que de maneira indireta, segundo analistas. **Regina Nitsch Bressan, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em Integração da América Latina** O que a gente viu em Valparaíso, [no Chile] com a posse do Kast, não foi apenas uma cerimônia diplomática, foi um ensaio para a eleição brasileira. A presença de Flávio Bolsonaro e a ausência de Lula cristalizam essa nova dinâmica na região. Diferente de 2022, quando Lula surfava em uma onda rosa – não como a do começo do século, mas um cenário um pouco mais ameno – temos agora um cenário de um pêndulo que bate forte à direita. O Flávio Bolsonaro estar lá e dizer ao eleitor brasileiro que o modelo conservador é a regra, não é exceção, é um baita ganho [para o campo da direita]. A foto do Flávio ao lado do Kast e do Milei serve para nacionalizar as promessas de sucesso que ele está plantando, como “prova” de que esse pode ser o melhor conceito para o Brasil. A decisão de Lula de não comparecer após o convite de Kast ao senador Flávio mostra que o Itamaraty e o Planalto decidiram que o custo doméstico da imagem superava o ganho diplomático, então Lula evitou a armadilha de ser figurante num evento dominado pela estética da nova direita. Mas essa ausência alimenta a narrativa da oposição de que o governo atual está isolado em uma vizinhança que tem mudado de cor. O risco para o PT é que a integração regional, antes uma vitrine, vire um flanco aberto para críticas de ineficiência ideológica. É importante dizer, a vitória de Kast foi decidida no binômio segurança mais imigração – os mesmos temas que pesquisas como Atlas e Datafolha mostram ser o calcanhar de Aquiles de Lula. A retórica de mão dura que agora emana de Santiago e Buenos Aires para cá, sobretudo com tanto apoio de Washington, pressiona muito o debate brasileiro para o campo da direita, não tem como ser diferente. A eleição de 2026 não vai ser apenas sobre a economia, vai ser sobre quem oferece a sensação de ordem, porque uma coisa que a gente tem discutido muito nos congressos internacionais, é como a questão da violência [no âmbito] doméstico é um ponto nevrálgico nas discussões políticas atuais. A gente tem a impressão, às vezes, que o continente está buscando isso a qualquer custo. Então, com a guinada do Chile, a situação muito tensa da Venezuela, o Brasil vai chegar em outubro com muitos desafios e se a direita vencer aqui, o projeto progressista de integração vai entrar numa hibernação profunda. Mas se o governo se mantiver aqui, o Brasil vira uma ilha de centro-esquerda que vai ser cercada por governos de ruptura da direita. É uma situação difícil, bem delicada. **Clarissa Franzoi Dri, doutora em ciência política pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Bordeaux, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) e pesquisadora colaboradora do Observatório Político Sul-Americano.** A presença da extrema direita no poder em diversos países é uma realidade do mundo todo, não é uma característica só da América Latina. Na verdade, há uma divisão, a gente não tem uma maioria de governos da extrema direita hoje no continente. É verdade que as eleições no Brasil vão ser muito acirradas e polarizadas. O continente sempre tem uma influência, claro, mas eu não acho que o debate internacional é o ponto que mais vai pesar. Eu acho que as consequências econômicas dos eventos internacionais podem pesar mais do que a realidade política dos países vizinhos. Consequências da guerra do Irã, aumento nos preços, no custo de vida, no preço de combustíveis e alimentos. Isso pode ter mais presença no debate eleitoral do que as presidências argentina e chilena. O presidente Lula dialoga muito bem com todos os partidos políticos no poder, e dialoga muito bem, inclusive, com o presidente Trump, que não é de uma ideologia próxima à do governo brasileiro, muito pelo contrário. Ele procura seguir a linha de diálogo, de mediação com diferentes forças políticas, sem intervenção em interesses domésticos, como é a tradição diplomática brasileira. Isso não era uma realidade da presidência anterior. No caso do presidente Bolsonaro, a gente tinha um alinhamento grande com os EUA sob o primeiro governo Trump. Com a eleição do Biden, isso muda radicalmente, e o presidente Bolsonaro começa a fazer visitas ao presidente russo, por exemplo. Não é essa a prática do atual governo brasileiro, que se relaciona com Estados mais do que com presidentes. O chanceler brasileiro esteve na posse do presidente chileno, levou uma carta do presidente Lula. É natural que não haja uma proximidade ideológica entre eles, justamente porque são de alas ideológicas opostas, mas não há nenhum interesse do Brasil em se afastar dos vizinhos sul-americanos ou cortar relações nesse atual governo, diferente do que aconteceu no governo anterior. **Gustavo Menon, pós-doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca, docente credenciado do Prolam/USP e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB)** O cenário na região é de fragmentação política e desintegração econômica em meio a um mundo em conflagração. Do ponto de vista do plano internacional, diferentes tensões e conflitos difusos cada vez mais passam a dirigir a atuação das forças políticas na região. Quando nós olhamos para esse panorama mais amplo, [temos] a guerra na Eurásia [entre Rússia e Ucrânia], os conflitos que se espalharam pelo Oriente Médio e esse cenário de guerra comercial entre Estados Unidos e China. Quando a gente puxa os debates para a América Latina, vemos que essas correntes, essas plataformas políticas de extrema direita vem ganhando fôlego e vitalidade em um quadro que aponta exatamente para o crescimento desses projetos políticos. É o que aconteceu na Bolívia, após mais de 20 anos do [partido político socialista] MAS junto ao poder, essa guinada que presenciamos no Chile e o fortalecimento do campo bolsonarista frente à realidade brasileira. E sem mencionar a própria organicidade do fenômeno de Javier Milei na Argentina. Há um arco de forças heterogêneas que acabam, de certa forma, convergindo nesses projetos, que são muito conectados com ações extremistas. E vale notar que esse campo da extrema direita na região se conecta em grande medida a partir do espelhamento de algumas políticas e discursos chefiados por parte dos EUA. Há uma aderência em termos de programa político e econômico com o Trump e esse cenário acaba se dilatando para toda a América Latina. Nós temos outros casos, por exemplo, na América Central, de presidentes que estão muito antenados em agendas de cerceamento de direitos, com medidas de austeridade econômica e que seguem esse ideário articulado por parte de Washington. É o caso do governo de Nayib Bukele em El Salvador. A esquerda, por sua vez, tenta de certa forma adotar o discurso da soberania e da democracia para a conformação de frentes mais amplas que saiam em defesa [dessas bandeiras] nos países latino-americanos. Esse ano, como se sabe, é um ano decisivo frente à eleição presidencial no Brasil e na Colômbia, países atualmente governados por projetos mais à esquerda. Mas veja que o quadro é de fragilidades para esses setores, uma vez que nós presenciamos no início do ano essa política de ingerência dos EUA na América do Sul, que acabou culminando no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Além disso, vale citar as fortes pressões por parte da Casa Branca indo em direção ao regime cubano, pressionando a ilha nesse cenário de fragilidades [em termos de] uma política mais ampla de soberania energética. Com a continuidade dessas guerras no plano internacional, é bem provável que esse cenário de agudização das contradições se reflita ainda mais na região. Em meio a esse mundo em conflagração, a América Latina, por ser essa região primária-exportadora-analógica no comércio internacional e por se encontrar nesse cenário de fragmentação política e desintegração econômica, [não tem] medidas mais amplas de cooperação, de orquestração regional e de integração que possam dar resposta efetivas a esse cenário, essa atmosfera de profundas incertezas e grandes instabilidades.

Como os novos presidentes sul-americanos podem influenciar as eleições no Brasil.
- bsapub
apublica.org/2026/03/como-presidentes...
#Portugus #Chile #Direita #Eleio #Poltica

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Imerso em polêmicas, o Supremo Tribunal Federal (STF) está novamente nos holofotes das Eleições no Brasil. A pauta, desta vez, está menos associada a decisões sobre o andamento do processo eleitoral democrático – a exemplo do que ocorreu em 2022 – e mais conectada à imagem pessoal dos ministros da Corte. As recentes revelações sobre Daniel Vorcaro – dono do Banco Master e figura central de uma das maiores fraudes bancárias do país – abalaram ainda mais a relação entre legislativo e judiciário. De um lado, o Supremo tenta contornar o desgaste causado pela proximidade de dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes do caso Master. Do outro, alas mais radicais do parlamento veem a oportunidade de inflar propostas de impeachment a integrantes do STF, diante da desaprovação popular que o escândalo causou. Mesmo com a tentativa de remediar a situação com a criação de um código de ética de conduta, como defendem os ministros Edson Fachin e Cármen Lúcia, o desgaste institucional não será revertido de uma hora para outra e nem esquecido pelo eleitorado brasileiro, que, em outubro deste ano, decidirá quem comandará o país a partir de 2027. Nesse contexto, o STF poderá ser peça-chave nas urnas ao ser utilizado como arma de campanha eleitoral – compreende o constitucionalista Diego Werneck, professor associado do Insper e doutor em direito pela Universidade Yale, nos Estados Unidos. “Agora estamos muito centrados na direita pela conjuntura política dos últimos anos. Se tornou uma estratégia eleitoral. Mesmo que politicamente eles não consigam fazer um impeachment de um ministro do Supremo, eleitoralmente se tornou algo importante você falar que vai”, avalia. Em entrevista à **Pública** , o pesquisador explica como a falta de regras claras de conduta e transparência impactam diretamente nas relações entre os Poderes, além de comprometer a credibilidade da Corte frente à população brasileira. Werneck defende a autonomia e liberdade para as decisões do tribunal, mas frisa a importância de limites aos seus membros para evitar, entre outras questões, o avanço de pautas antidemocráticas no Congresso Nacional. Diego Werneck é professor associado do Insper e doutor em Direito pela Universidade Yale, nos Estados Unidos. **Confira a entrevista** **Em delimitação constitucional, qual o papel do STF hoje?** Essa é uma pergunta que não tem uma resposta única. Porque, para o desenho constitucional e por práticas e interpretações dos seus ministros desde a Constituição, o Supremo é uma instituição que tem múltiplos propósitos, cumpre funções variáveis dentro do nosso sistema. Funções que em outros países não estariam na mesma instituição. Acaba sendo a última instância recursal para questões que envolvem constitucionalidade, mas é muito flexível nessa exigência. O tribunal acaba podendo escolher quando quer tratar de qualquer outro tema. É um tribunal que tem se arrastado para brigas no Congresso, por conta da sua competência, envolvendo mandado de segurança e habeas corpus contra as mesas diretoras. […] Essas são competências que Oscar Vilhena Vieira escreveu [sobre] há uns 20 anos, fazem do STF também um tribunal de pequenas causas. Pequenas, porque envolvem disputas do dia a dia, disputas regimentais. E mais importante do que tudo isso, o Supremo é o grande tribunal penal do Brasil. **O Supremo tem um papel também de interpretação social sobre decisões do judiciário. Mas como dosar e estabelecer um limite a essas interpretações e decisões?** Para entender o papel que ele cumpre na política, na sociedade brasileira, é chave entender que ele se construiu com muita flexibilidade na interpretação da Constituição, das suas competências, de como aplicar regras de procedimento. Se você olhar as decisões dos ministros, mesmo quando eles não fazem tudo, eles quase sempre dizem que eles poderiam fazer. […] É um tribunal que há muito tempo sinaliza para fora, assim: “não se acanhe, traga a questão aqui e, mesmo que seja um pedido mais ousado, menos baseado do que você possa imaginar, a gente pode ser criativo… a gente pode rever nossos precedentes”. É um tribunal que, do ponto de vista jurídico, tudo é possível, [por isso] sinaliza que vale a pena você [se] arriscar. **O STF sempre foi alvo de críticas, mas nos últimos anos os ataques aumentaram, principalmente por parte da extrema direita. Os fatos atuais envolvendo a Corte dão mais combustível a isso?** Com certeza. O dilema que a gente vive no Brasil hoje é que duas coisas são verdade. O Supremo tem uma série de decisões, nos últimos 15 anos ou mais, que foram muito importantes para proteger direitos fundamentais. [Outras] que foram, mais recentemente, também muito importantes na pandemia para proteger a população brasileira. Nesse processo eleitoral tenso, da pandemia para cá, e no julgamento dos golpistas, foi importante para a democracia brasileira. Tudo isso é verdade! Mas também é verdade que é um tribunal profundamente disfuncional, que é um tribunal que dá muita liberdade para os seus ministros. [Para que eles] se quiserem, agirem como políticos, negociarem com políticos, se aproximarem de empresários, de maneira que o juiz não deveria; [liberdade para] virarem empreendedores políticos eles mesmos. **O ministro Dias Toffoli tomou decisões que, segundo investigadores e especialistas, protelaram as investigações sobre o caso Master. Mas ele tinha respaldo legal para isso. Essa autonomia, classificada muitas vezes como “ilimitada”, afeta a democracia?** São duas coisas aí. Primeiro, acho que os ministros do Supremo têm poder individual demais. O leque de coisas que um juiz sozinho deveria ser capaz de fazer deveria ser muito restrito. Ok, digamos que as regras sejam essas, ele tem poder para fazer isso, é uma escolha individual. Ele pode usar esse poder bem ou mal, mas é uma decisão para qual ele tem amparo em termos constitucionais. Mas qual é o problema? Olha o entorno. Ministro pode até estar fazendo uma coisa que tem embasamento legal, que tem uma controvérsia legítima legal, eu discordo, outro concorda. Os Tribunais vão desagradar as pessoas que vão achar que eles erraram. Isso acontece o tempo todo. Só que aí você usa esse poder para resolver uma questão controversa e o seu comportamento do entorno da decisão é um comportamento que não chama a atenção das pessoas para os seus argumentos, mas chama a atenção para outras motivações. Os ministros do Supremo, muitos deles, não todos, acabam sendo máquinas de fazer as pessoas prestarem atenção em coisas que não são os argumentos: pelo o que eles falam, com quem eles se encontram, com relações pessoais, econômicas, problemáticas. Há muitas decisões do Supremo que geram críticas e são absolutamente razoáveis. Você pode até discordar, não tem nada de absurdo, discordar é normal. O problema é com a instituição que, além de dar muito poder individual, dá muita liberdade para que os ministros usem esse poder individual, ao mesmo tempo, em que se comportam de jeitos próximos demais dos conflitos que têm de resolver. E fazem as pessoas se perguntarem o tempo todo: “beleza, ele está me dizendo que tem argumento, que tem competência para isso. Mas, olha que o que está acontecendo fora dos argumentos, olha o comportamento do ministro”. Isso é uma disfunção. **Você falou em liberdade. Essa liberdade implica em falta de transparência dos ministros? Pergunto isso porque outra polêmica envolve o ministro Alexandre de Moraes. Conversas obtidas pela PF mostrariam uma possível relação entre ele e Daniel Vorcaro.** O mais importante é a liberdade do juiz de decidir, isso que a independência judicial protege. Para proteger isso, a gente acaba tendo que tolerar, é inevitável, que o juiz tenha alguma margem de proteção, para alguns comportamentos que a gente pode não considerar os ideais. Imagina se fosse muito fácil punir um juiz do Supremo porque ele jantou com um político. Imagina o quanto isso poderia ser usado para intimidar esse juiz. Não deveria ser simples você disciplinar ministro do Supremo no seu comportamento, não deveria ser fácil e nem trivial. Porque isso ameaça a liberdade dele de decidir. Mas, tem vários graus dessa liberdade de comportamento. Olha o que você descreveu: primeiro é um problema de transparência. É tão básico que não consigo entender qual o argumento contrário. Se um ministro voa num jatinho, as pessoas têm que saber. Não precisa ser ilegal aceitar carona num jatinho, isso é uma outra questão. Mas a transparência me parece o ponto mais baixo dessa escala e me parece obrigatório. Por exemplo, se o ministro está dando uma palestra, quanto ele recebeu? Se você recebe R$ 100 mil para falar numa palestra, isso é relevante, as pessoas precisam saber que interesses estão pagando pelo seu tempo daquela forma, mesmo que não tenha nada de ilegal. […] A gente também pode concluir que alguns limites a gente tem que colocar. **Um código de ética rígido, como defendem o ministro Edson Fachin e a ministra Cármen Lúcia, mudaria isso?** Essa é uma pergunta muito importante. Ela deveria [ser encarada] como uma questão existencial sobre o Supremo. Porque se a resposta é “não”, isso nos revela um dado perturbador sobre o Supremo, de que é um tribunal que não gosta de regras, que não aceita limites. E o que é pior, não aceita limites sobre o comportamento. Uma coisa é você não aceitar limites sobre sua liberdade para decidir, isso é mais delicado. Mas você não aceitar limites sobre o seu comportamento, não aceitar limites de procedimento, isso é muito sério. Também há a posição de que não precisa ter regras porque as regras já são boas. Eu tendo a pensar que, se o Supremo seguisse as mesmas regras que cabem aos magistrados, em geral, já estaríamos bem. **Como você avalia o processo de escolha de um ministro do Supremo no Brasil?** O processo de escolha não vinha funcionando mal porque refletia muito o presidencialismo de coalizão, no sentido de que nenhum presidente conseguiu pegar a sua primeira opção ideal. Quando coloca a cabeça no travesseiro e pensa “nossa, a primeira pessoa que eu queria colocar é fulano”. No geral, desde 1988, eu diria, que foi um sistema que conseguiu impedir que presidentes fizessem isso. Mas não a ponto de impedir que esses presidentes tivessem a sua visão política, do que eles querem para o Brasil, no Supremo. Então, o presidente pode dizer “eu vou indicar um ministro negro, vou indicar uma mulher”. Ou como o ex-presidente Bolsonaro disse, tem que ter um ministro evangélico. **Em termos internacionais, o sistema de escolha de um ministro no Brasil se assemelha com outras democracias?** O nosso sistema é igual ao dos EUA. Não é um sistema tão comum nos desenhos mais recentes, mas, se a gente pega alguns tribunais com sistemas presidencialistas mais antigos, como Argentina e EUA, o Brasil está alinhado com esse sistema. Mas o que aconteceu nos EUA? Com um sistema bipartidário, o que aconteceu, nas últimas décadas, foi uma clara associação das indicações com os partidos. Então, os ministros têm uma posição ideológica mais clara, não tem muita surpresa. Um presidente democrata vai indicar alguém mais à esquerda no espectro político americano; e um presidente republicano mais à direita. No Brasil, o nosso sistema não gerou a mesma coisa. O nosso sistema, acho que está quebrando, porque as últimas indicações, de Temer para cá, são indicações que têm uma marca muito perigosa: a marca da lealdade pessoal, da proximidade pessoal do indicado a quem o indicou. Isso aconteceu com o Bolsonaro, aconteceu nas indicações do Lula. Não quer dizer que sejam indicações que não possam ter outros méritos, preenchem os requisitos, isso é outra questão. Mas tendo ou não notório saber e reputação ilibada, um tribunal não deveria ser visto como oportunidade para quem tem a faca e o queijo na mão colocar alguém com lealdade pessoal lá. **E estamos em ano eleitoral, como você vê a imagem do Supremo hoje na sociedade brasileira?** O Supremo pode ser um solucionador geral de problemas da política porque ele ouve lados diferentes, está disposto a conversar com lados diferentes. Esse era o tribunal que a gente tinha até recentemente. O que aconteceu nos últimos anos: o Congresso passou a ver o Supremo como próximo demais desse governo [atual]. Isso aconteceu por várias razões sobre como o Supremo atuou e [sobre] como o governo contou com o Supremo para várias coisas. E as pessoas começaram a olhar para o Tribunal como um ator que não é tão diferente dos outros [atores] políticos. Então como elas avaliam o tribunal? “Se o tribunal está entregando coisas que eu gosto, eu aprovo; se não está entregando coisas que eu gosto, eu desaprovo”. Por que seria um problema? Porque os tribunais precisam ter uma legitimidade que não seja só essa, que não seja só de quem concorda. Isso é o que protege [o judiciário] de ataques. Isso é o que faz as pessoas falarem “eu não concordo com o que o tribunal decidiu na semana passada, mas é muito importante ter uma instituição independente que decida contra mim”. Então, o apoio da população é muito importante para dificultar que políticos, cuja agenda seja capturar e controlar, façam isso. **Nesse sentido, você acredita que a imagem do Supremo virou arma para diferentes atores políticos?** Agora estamos muito centrados na direita pela conjuntura política dos últimos anos. Se tornou uma estratégia eleitoral. Mesmo que politicamente eles não consigam fazer um impeachment de um ministro do Supremo, eleitoralmente se tornou algo importante você falar que vai. É um dos efeitos colaterais do ex-presidente Bolsonaro. Ele fez isso, transformou as eleições de 2022 quase que num plebiscito, uma consulta popular sobre o Supremo e a juízes específicos, como Alexandre de Moraes, por exemplo. Tem eleitorado conservador que está insatisfeito com o Supremo por decisões substantivas, tem eleitorado que associa o tribunal a um desmonte da luta contra a corrupção, tem um eleitorado que vê um reflexo dos privilégios da magistratura brasileira, uma pauta de republicanismo. É preciso enfatizar: quem está insatisfeito com decisões específicas do Tribunal por discordar, esse é o eleitorado que da maneira como enxerga o Tribunal, tenho menos simpatia por essa indignação. Porque o Tribunal não está ali para decidir do jeito que você quer. Mas as pessoas que veem ali um tribunal que precisa de limites, que falta republicanismo, que falta transparência, essas têm uma pauta que me parece legítima. O problema é que como a pauta do impeachment está nas mãos da extrema direita, as coisas se misturam. O que eles querem é reformar o tribunal ou eles querem que esse tribunal passe a decidir do jeito que eles querem?

Após caso Master, STF pode virar “estratégia eleitoral” para direita, diz pesquisador.
- bsapub
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#Portugus #BancoMaster #Direita #Eleio #Poltica #STF

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> _Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições,__inscreva-se aqui._ Vão dizer que é sobre mercado, vão dizer que é sobre corrupção, que é sobre Banco Master, sobre abusos de poder do Supremo Tribunal Federal (STF). Você vai ler analistas e mais analistas informando que o que está em jogo é a segurança pública, o combate à violência, a política econômica – precisamos segurar os gastos, eles vão dizer, é preciso privatizar as empresas públicas, vão alardear. **Mas as eleições presidenciais de 2026 não são sobre isso – e temos que entender de uma vez por todas.** Sob a batuta de Jair Bolsonaro, o pleito será um verdadeiro plebiscito sobre a questão existencial que hoje assola todas as nações do globo: **devemos manter nosso regime democrático, por falho que seja, ou devemos perdoar quem atentou contra ele e abrir espaço para novos arranjos de poder de viés autoritário?** Bolsonaro é craque no jogo da política rasteira, e sabia que ter seu sobrenome na urna seria enorme vantagem na largada. Mas, independente do nome que se solidificar no campo da direita, o “pedágio” a ser pago à família está garantido: o perdão ao golpista-mor. E, portanto, que o Brasil abrace a narrativa de que jamais houve tentativas de golpes de Estado, que se anistiem todos aqueles golpistas que estiveram envolvidos – da senhorinha até os generais. **Os sempre ponderados analistas políticos dirão que, como Bolsonaro tem apoio de metade do país, talvez seja esse o preço a pagar.** Por isso escrevo este alerta. Vamos ver que preço é esse. Talvez a consequência maior de uma eleição ao campo da direita, abraçado ao bolsonarista – como inevitavelmente vai estar, nosso empresariado precisa deixar de lado essa ilusão ingênua, porque quem tem voto e mobilização na direita é Bolsonaro – seja a destruição do único exemplo de como se pode confrontar o assalto tecno-fascista que hoje assola centenas de países, através da Justiça e do Estado Democrático de Direito. Esse exemplo, diga-se, foi dado pelo Brasil. Vamos voltar um pouco no tempo para entender o que conseguimos enquanto sociedade desde 2023 até aqui. Vale lembrar os detalhes daquele pesadelo. A invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro daquele ano foi o ápice de uma construção de mais de 4 anos de Jair Bolsonaro e sua turma – entre eles, claro, seus filhos Eduardo e Flávio – que utilizou recursos do governo federal para financiar e propagar desinformação sobre eleições, criar uma Abin paralela para investigar inimigos, aparelhar a PF para o mesmo fim, buscar apoio externo para a narrativa sobre fraude nas urnas (lembra da reunião com embaixadores?), mobilizar o Ministério da Defesa para pressionar a Justiça Eleitoral e elaborar um documento afirmando que não podia garantir lisura nas urnas e mandar a polícia rodoviária impedir que eleitores chegassem às urnas, para dar apenas alguns exemplos. Isso tudo aconteceu antes da tentativa de Golpe de Estado em si, cujos planos foram muito bem documentados pelo processo judicial no STF pelo qual Jair Bolsonaro foi condenado e está preso, que incluíam, entre outras coisas: a) Um plano para matar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o Ministro do STF Alexandre de Moraes; b) A decretação de estado de sítio e decreto de Operação de Garantia da Lei e da Ordem; c) A prisão dos ministros do STF. Para conseguir executar seu plano, Bolsonaro não reconheceu a derrota e realizou 14 reuniões com líderes militares, sendo que nas reuniões de 7 e 14 de dezembro de 2022, ele tratou de uma minuta golpista que propunha a decretação de Estado de Sítio. Na reunião do dia 14, ouviu do comandante do Exército Marco Antônio Freire Gomes, que seria preso se tentasse avançar com o plano. Isso tudo aconteceu. Está nos autos, faz parte da história. Depois da invasão da Praça do Três Poderes, o Brasil conseguiu, de maneira inédita: * Tornar Bolsonaro inelegível; * Realizar uma investigação exemplar sobre os planos golpistas; * Julgar 31 pessoas por planejarem o golpe de Estado e condenar 29 incluindo 22 militares – entre eles, os generais **Walter Braga Netto,** **Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Mário Fernandes** e o almirante **Almir Garnier,** ex-comandante da Marinha; * Julgar e condenar outros golpistas; * Realizar dois atos comemorativos para lembrar a tentativa de golpes de Estado e planejar um memorial. Tudo isso, com aprovação popular. Segundo o Datafolha, 54% da população acha que a prisão de Bolsonaro foi justa, contra 40% que a considera injusta. Então, **este plebiscito que vamos encarar em outubro será sobre se o Brasil segue neste rumo e se livra do fantasma do golpismo de uma vez por todas, ou se decidimos dar um cavalo de pau e colocar a perder toda esta construção coletiva.** Mas tem uma coisa a mais: por conta do contexto externo, **o que está em jogo é a nossa soberania, mais do que em qualquer outro momento**. Enquanto lutava institucionalmente contra o golpismo, o Brasil tornou-se bastião global da regulação das plataformas digitais que lucram com a desinformação e o discurso extremista e antidemocrático, tendo conseguido colocar o debate sobre “integridade da informação” na pauta internacional, estando presente na declaração do G20 ocorrido no Brasil; suspender parcialmente o artigo 19 do Marco Civil das Internet, que impedia qualquer responsabilização às Big Techs por conteúdo postado nas suas redes, mesmo que fosse pago, criminoso, e elas lucrassem com ele. Aprovamos, ainda, o Eca Digital, estabelecendo responsabilidades para as Big Techs para proteger crianças e adolescentes, proibimos o uso de IA em campanhas eleitorais, pautamos a regulação dos serviços de streaming como Netflix e discutimos uma regulação da Inteligência Artificial que compense quem trabalha para gerar conhecimento. Em retaliação, em meados do ano passado o governo dos EUA impingiu 50% de tarifas a todas as exportações brasileiras, sendo a maior taxa do mundo. Essas tarifas causaram prejuízos milionários, mas agora parece que estão no passado. Mesmo assim, o Brasil ainda está sendo investigado pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA por “práticas comerciais desleais”, inclusive por regras impostas às Big Techs. Alexandre de Moraes foi alvo da Lei Magnitsky e ainda sofre processo na justiça de Miami iniciado pela empresa de Donald Trump, a Trump Media, dona da rede social Truth Social. **Todas essas retaliações contra uma atuação interna que pretende, por um lado, deixar pra trás o fantasma do golpismo e, por outro, execrar esse fantasma na sua roupagem digital** , – portanto, realizar a necessária regulação das Big Techs, responsabilizando-as pelos crimes que permitem e com os quais lucram – demonstram que o intuito dos EUA é, para defender seus interesses, **negar ao Brasil a capacidade de proteger nossa sociedade e seus cidadãos**. Ora, não tem um sujeito que mais trabalhe para entregar toda e qualquer independência brasileira ao governo norte-americano do que Eduardo Bolsonaro, irmão do futuro candidato e filho de Jair, que está desde março do ano passado organizando uma conspiração internacional para acabar com qualquer ação que represente autonomia do lado de cá. Em janeiro, Flávio Bolsonaro esteve ao lado do irmão e de Paulo Figueiredo para se encontrar com o mesmo círculo de apoio que ambos construíram nos EUA e que chegou a convencer a Casa Branca a retaliar contra o Brasil. Não existe maior evidência que o candidato Flávio segue as alianças submissas do irmão Eduardo. Por mais que Trump diga que “se dá bem” com Lula, há evidências de sobra de que ele prefere um bolsonarista. Recentemente, segundo a Reuters, o Departamento de Estado designou um direitista radical como “conselheiro sênior para políticas sobre o Brasil”. Darren Beattie é subsecretário de Estado para a Diplomacia Pública e um aliado importante, tendo se reunido algumas vezes com Eduardo e Paulo nos meses antes do tarifaço. Em agosto do ano passado, ele tuitou que Alexandre de Moraes era “o principal arquiteto do complexo de censura e perseguição dirigida contra Bolsonaro”. Uma vitória de Flávio, portanto, **significa também jogar para o alto todos os avanços feitos pelo Brasil – e reconhecidos internacionalmente – como uma das lideranças na discussão da governabilidade digital.** Finalmente, para fechar o raciocínio que iniciei lá no começo do artigo: com a candidatura de Flávio Bolsonaro, **estamos literalmente olhando para a beira do abismo**. Não existe nenhuma possibilidade de termos o filho de Jair no Planalto sem perdão ou anistia à tentativa de golpe de 8 de Janeiro, e não existe nenhuma chance deste perdão não vir acompanhado pela narrativa de que na realidade eram patriotas, e estavam, de fato, denunciando uma eleição fraudada. Em política, as meias-verdades nunca param de pé. Ou se diz uma verdade inteira, ou a população jamais acreditará nela. Foi o que aconteceu com a nossa anistia ampla, geral e irrestrita: se todo mundo foi perdoado, se ninguém falou mais sobre as tais torturas, então talvez a ditadura fosse “ditabranda”, certo? Da mesma maneira: ou houve golpe e seus perpetradores devem ser punidos, ou não houve golpe. Não existe meio termo. Vendida essa narrativa, o espírito de Justiça requererá, necessariamente, que se investigue e puna quem perpetrou essas prisões abusivas – e então abre-se espaço para investigações contra os procuradores, delegados da PF, jornalistas, juízes e ministros do STF que participaram na elucidação dos crimes de 8 de janeiro. Igualzinho ao que ocorre nos EUA. Por outro lado,**rompe-se uma aliança nacional que a trancos e barrancos conseguiu reforçar a confiança que nossa sociedade tem no sistema eleitoral, na Justiça eleitoral e na urna eletrônica**. Afinal, se houve uma eleição fraudada, quantas mais pode haver? A sequência será o uso da manipulação eleitoral nas suas mais variadas possibilidades – redução de funcionários, ampliação da narrativa de fraude, contratação de hackers, mais policiais tentando impedir eleitores de votar – e desta vez, com menos resistência pública. Em suma: **pode ser essa a última eleição democrática**.

2026 não é ano de eleição, mas de plebiscito.
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